segunda-feira, 21 de março de 2011
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Clariceando
De uma hora para outra, ou até em menor tempo que isso, minha vida deu um giro de 360º... Que maravilha!Há tempos digo que Clarice Lispector é minha escritora preferida, mas há pouco que passei a enxergar realmente suas palavras... o que fez me apaixonar ainda mais por ela.
Em seu livro, A paixão segundo G.H (o qual lí para um trabalho de fenomenologia e, deixando a modéstia de lado, ficou muito bom), a escritora pede na introdução que o mesmo seja lido apenas por pessoas de alma já formada e, por ler o livro, pelas outras obras conhecidas, pelas pesquisas que fui fazendo compreendi o que é que causa, acredito que não só a mim, ler Clarice: vai-se formando a alma, vendo o mundo pelo lado de dentro, a essência...
Hoje, Clarice completaria 90 anos de vida e ontem, completou-se 33 anos sem Clarice. Por isso resolvi deixar algumas de minhas marcas preferidas dessa escritora que classificou-se como uma pergunta ...
"Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite."
"Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas."
"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada."
"Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam."
"E o que o ser humano mais aspira é tornar-se ser humano."
"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."
"Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro."
"É tão difícil falar e dizer coisas que não podem ser ditas. É tão silencioso. Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois? Dificílimo contar. Olhei pra você fixamente por instantes. Tais momentos são meu segredo. Houve o que se chama de comunhão poerfeita. Eu chamo isto de estado agudo de felicidade."
"Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante."
"Sou como você vê: posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania. Depende de quando e como você me ver passar."
"Eu sou mais forte que eu."
"Mas o vazio tem o valor e a semelhaça do pleno. Um meio de obter é não procurar, um meio de ter é o de não pedir e somente acreditar que o silêncio que eu creio em mim é a resposta a meu - a meu mistério."
"O que obviamente não presta sempre me interessou muito."
"E daí? Eu adoro voar!"
"Como um gato de dorso arrepiado, arrepio-me diante de mim."
"Ter contato com a vida animal é indispensável à minha saúde psíquica."
"A música é da origem do pensamento, ambos vibravam no mesmo movimento e espécie. Da mesma qualidade do pensamento. Tão íntimo, que ao ouvi-la se revelava."
Pra finalizar:
“Enfim, quebrara-se realmente o meu invólucro, e sem limite eu era. Por não ser, eu era. Até o fim daquilo que eu não era, eu era. O que não sou eu, eu sou. Tudo estará em mim, se eu não for; pois "eu" é apenas um dos espasmos instantâneos do mundo. Minha vida não tem sentido apenas humano, é muito maior - é tão maior que, em relação ao humano, não tem sentido. Da organização geral que era maior que eu, eu só havia até então percebido os fragmentos. Mas agora, eu era muito menos que humana - e só realizaria o meu destino especifïcamente humano se me entregasse, como estava me entregando, ao que já não era eu, ao que já é inumano.
O mundo independia de mim - esta era a confiança a que eu tinha chegado: o mundo independia de mim, e não estou entendendo o que estou dizendo, nunca! Nunca mais compreenderei o que eu disser. Pois como poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim? Como poderei dizer senão timidamente assim: a vida se me é. A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro... ”
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
In the time of my life.
A gente ria, chorava, cantava, fazia planos... lembra?
- Lembro a todo momento.
- Por que a gente se separou?
- Não sei. Mas sei que nunca quis isso. O que quero é você sempre perto.
- Eu também. - Pensou por um tempo - Será que a gente cresceu?
- Sei foi isso, então cresci de um modo completamente diferente do que eu queria.
- Eu também. Mas isso a gente não escolhe, se adapta ... Será?
- Até agora eu não consegui me adaptar.
- É, eu também não.
- Sinto muita falta de você.
- Eu também sinto a sua.
- O que a gente faz?
- Não sei.
- O problema é que se ficar no não sei, se não fizermos nada, vamos acabar cada vez mais distantes.
- Eu sei, mas como é que vou fazer alguma coisa agora?
- Estamos na mesma cidade e tá desse jeito, a distância não está sendo só física... Isso que dói mais.
- Esse é o problema, entende?
- Não sei se entendo... Me explica?
- Se eu não entendo...
Como você quer?
- Você perto. Mesmo que eu esteja aqui e você do outro lado do mundo.
Quero aquela magia, sabe?
Não sei descrever, mas acredito que você entenda.
- E entendo.
- Eu assumi tanta coisa, mas tanta coisa que hoje não dou conta de nada... Nem de mim.
- E o que fazer?
- Agora a gente espera? Ou não?
- Esperar o quê? É infantil, mas mesmo da forma como tá, sempre que paro pra pensar no meu futuro você está comigo.
- Eu sei como é. É como fazer parte, entende?
terça-feira, 2 de novembro de 2010
E que dia não tem Clarice?
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Clarice Lispector... Sempre!
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Escassez
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Abstrato.
Mais uma vez ví como realmente nada é por acaso.
Há tanto que posso dizer, mas fica mais claro se eu parar por aqui. Afinal, *"já que se há de escrever, que ao menos não se esmague em palavras as entrelinhas."
terça-feira, 22 de setembro de 2009
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Clarice Lispector VI
O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.
*Obrigada, Lu. Não só por ter me mostrado o texto, claro.
domingo, 23 de agosto de 2009
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Clarice Lispector V
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Clarice Lispector IV
¹: datilógrafa, no original.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Clarice Lispector III
Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre!
Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer: - E daí? Eu adoro voar!"
sábado, 20 de junho de 2009
Clarice Lispector II
faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações,
faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos,
faz de conta que uma veia não se abrira
e faz de conta que ela não estava em silêncio alvíssimo escorrendo sangue escarlate,
e que ela não estivesse pálida de morte,
mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade,
precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse
com o faz de conta verde-cintilante,
faz de conta que amava e era amada,
faz de conta que não precisava de morrer de saudade,
faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus,
...faz de conta que vivia e que não estivesse morrendo
pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte,
faz de conta que ela não ficava de braços caídos de perplexidade quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio,
faz de conta que era sábia bastante para desfazer os nós de corda de marinheiro que lhe atavam os pulsos,
faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua pois ela era lunar,
faz de conta que ela fechasse os olhos e os seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos de gratidão,
faz de conta que tudo o que tinha não era faz de conta,
faz de conta que se descontraía o peito e a luz douradíssima e leve a guiava por uma floresta de açudes mudos e de tranqüilas mortalidades,
faz de conta que ela não era lunar,
faz de conta que ela não estava chorando por dentro
pois agora mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado..."
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Clarice Lispector I
Clarice Lispector é minha escritora brasileira preferida; incrível o modo como me identifico com seus textos, frases, crônica e ultimamente ando me encontrando muito mais nas palavras dela do que nas minhas; por isso, vou colocando alguns fragmentos que gosto, me identifico, ou que estou me idenficando agora.
terça-feira, 14 de abril de 2009
"Se eu fosse eu"
E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? não sei.
Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.
"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais".
Clarice Lispector
*Texto recomendado pela minha queridíssima Tia Gel. Obrigada, Tia!

